Sobre ser e/ou não ser

 

“Fazemos livros lindos”. Essa foi a primeira síntese que encontrei para o trabalho da Nega Lilu Editora, criada para publicar meus próprios romances de ficção. Prematura, aquela frase publicitária era mais expressão do desejo do que reconhecimento.

Não demorou para que eu percebesse que isso seria insuficiente. Fizemos livros lindos e eles estão ficando cada dia melhores, mas mirar o horizonte de forma ampliada nos alertou para a necessidade de atuar também nas pontas da cadeia produtiva. Porque até mesmo os livros mais especiais podem encalhar, se não tivermos consumidores interessados, se não houver formas alternativas de fazer com que o livro chegue até o leitor.

Pesquisando sobre o assunto, refletindo sobre a cena local e trocando ideias com autores independentes e editoras de todo o Brasil, entendi que as ações de política pública estão descobertas justamente nestas extremidades: formação de leitores/estímulo à leitura e circulação da produção literária. Então era preciso apoiar, transbordando o papel formal de uma editora.

Uma cena renovada sempre colabora para a transformação do estado das coisas. Sendo assim, entre as estratégias iniciais, criamos um programa de estímulo à leitura a partir da promoção de bate-papos com escritores e escritoras locais, no Evoé Café, e uma agenda permanente de qualificação de autores, em parceria com o Culturama, em Goiânia.

Um pouco antes disso, a Nega Lilu Editora criou o selo Naduk – carinhosamente apelidado de “selo piração” nos bastidores –, com a ambição de que ele fosse bem-sucedido em lançar a nova geração literária. Na minha cabeça fazia sentido que este catálogo fosse aberto com antologias de autores inéditos. Para isso, criamos a Coleção e/ou Poesia e Prosa.

Edital aberto em 2014 orientou o processo de seleção de poemas e contos para o volume 1 de duas coletâneas. Ao todo, foram 240 inscrições de 62 candidatos, confirmando que a produção existe e busca passagem. A Comissão de Seleção foi formada pelo poeta e compositor Carlos Brandão, a jornalista e revisora Daniela Marcacini, o Coletivo Evoé (representado por Giovana Belém Ogando e Ks Nir Baks) e por mim, Larissa Mundim.

Quarenta poemas foram classificados. Os 10 contos selecionados, no entanto, não foram suficientes para a composição de uma antologia de prosa. Com a inclusão de Wigvan Pereira na Comissão de Seleção, em 2015, ampliamos o processo seletivo para as crônicas. Outros 75 textos foram submetidos e 15, aprovados.

Considerando o processo seletivo em duas etapas, os volumes 1 de poesia e de prosa da Coleção e/ou reúnem 31 autores e autoras, sendo 26 inéditos. #orgulhonosso

É importante dizer ainda que, além dos novos que estão se lançando nesta coletânea, tanto na poesia quanto na prosa temos convidados, conforme previsto no edital. A ideia era promover o diálogo entre escritores contemporâneos, que têm uma trajetória em curso, e aqueles que estão chegando, se jogando, se atrevendo, acreditando que vale a pena.

O primeiro volume de poesia e de prosa da Coleção e/ou conta com o apoio institucional da Prefeitura de Goiânia, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Especialmente no caso de antologias, pequenas editoras costumam viabilizar publicações dividindo os custos em cotas, financiadas pelos próprios autores. Este pode ser um caminho mais rápido e não descartamos essa possibilidade para outros projetos. No entanto, pelo caminho percorrido – e descrito neste prefácio – acreditamos que a Coleção e/ou tenha vocação para ser um genuíno produto da política pública cultural que, neste momento, se estrutura lentamente em Goiás, a partir da implantação dos sistemas estadual e municipal de cultura. Tais mecanismos deverão estimular planejamento, direcionamento de recursos financeiros e controle social dos investimentos. (Larissa Mundim, coordenadora editorial da Nega Lilu Editora)

 

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