Zé Bocca: encontro de contadoes de histórias promovido pelo Grupo Gwaya, em Goiânia. Foto: Larissa Mundim

Empoderamento pela oralidade

De passagem por Goiânia a convite do Grupo Gwaya, no final do ano passado, o contador de histórias Zé Bocca (SP) conversou com a gente sobre o papel da oralidade na formação de leitores, incluindo saraus e audiolivros entre algumas das estratégias de estímulo à leitura, no Brasil de cerca de 200 milhões de consumidores potenciais de literatura. “Nossa vida é andar por este país”, lembra o ator que, na paráfrase a Luiz Gonzaga, evoca a simbologia em torno da figura do menestrel, inspiração para percorrer as principais capitais brasileiras, propagando a literatura e fortalecendo a história oral.

 

Nega Lilu Editora: O que é mais atrativo para você como contador de histórias?

Zé Bocca: A minha principal missão é a propagação da oralidade. A palavra só faz sentido quando é oral. A única palavra verdadeira é a palavra dita. O processo de leitura é um processo de oralidade: você vai lendo e vai ouvindo as palavras na sua cabeça. O brasileiro é um povo que faz literatura pela boca.

 

NLE: A luta pelo fortalecimento da história oral é uma atitude de resistência, é negação ou talvez revisitação da história oficial, necessariamente?

ZB: É natural que na academia haja forças favoráveis e contrárias ao movimento em torno da valorização da história oral. Na correlação de forças entre capital e trabalho, pela imposição do poder econômico é muito mais interessante [para o poder econômico] que a história seja registrada e revisada conforme interesses próprios. E a oralidade surge como uma relação de empoderamento. Na origem, sua disseminação e propagação, era feira por mulheres fiandeiras, na Idade Média.

 

NLE: Também ancestrais, os saraus estão vivos e são um importante espaço de expressão política, social e cultural, não é mesmo? E bastante ocupado pela juventude.

ZB: O sarau é uma maneira de por em pé as palavras que estão deitadas nos livros e nas composições. Aquilo é muito visceral. Também porque, geralmente, temos autores e autoras interpretando seu próprio texto, da forma como ele foi concebido. Portanto, uma manifestação de muita força. Mas eu vejo o sarau bem frequentado não somente por jovens, mas por um público diverso. Sempre tem os jovens autores, mas encontra-se também idosos poetas marginais. O sarau é assim… bem diversificado. Certo mesmo é que há jovens pra tudo: há os que vão no MBL, na igreja evangélica e nas ocupações de escolas declamar poemas.

 

NLE: Quem vive neste tempo está habituado a se ocupar com várias coisas ao mesmo tempo. O mercado editorial aposta que esse comportamento nos leva a uma aproximação dos audiolivros, uma forma interessante de colocar a leitura em dia e de estimular o convívio com a literatura. O que você pensa deste formato?

ZB: Eu acho o audiolivro muito legal. Primeiro, gera emprego, distribui mais trabalho para intérpretes: atores, atrizes, músicos, técnicos de som. E o audiolivro não te impede de consumir o livro impresso. Quem questiona isso faz uma discussão inócua. Sem falar que tem o aspecto inclusivo de leitores portadores de deficiência visual.

 

NLE: Em Goiás, com o apoio do Fundo Estadual de Arte e Cultura, a Nega Lilu Editora está produzindo um audiolivro de poesia, com certeza um dos primeiros do estado. Chama-se Abracadabras: crio enquanto falo, escrito por Cássia Fernandes.

ZB: De poesia? Que legal! Com certeza, não temos muitos no país.

 

NLE: Uma última questão: a Nega Lilu Editora apoia uma iniciativa da Casa da Cultura Digital que visa identificar, conectar e fortalecer a circulação da produção gráfica e literária independentes no Brasil. Esta iniciativa chama-se e-cêntrica e terá resultados do mapeamento, que está em curso, disponibilizado em março de 2017. O que lhe parece esta ideia?

ZB: Eu gosto muito desta possibilidade de trabalhar em rede, de se juntar, se colar e se colar e se somar. Iniciativas assim sempre são muito interessantes. Espero que a e-cêntrica tenha vida longa, com muita excentricidade – porque eu adoro uma excentricidade. Não me venha com o comum, por favor… rsrs. Mais do mesmo, não. Espero que esta iniciativa dê muitos frutos e me coloco à disposição para colaborar. Nossa vida é andar por este país e disseminar a literatura oral, sempre.

 

NLE: E qual é o seu signo, Zé? rs

ZB: Sou de peixes… se for não me deixes.

 

 

 

 

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