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Ler mais não será suficiente

A cultura como valor simbólico, a cultura como direito de cidadania e a cultura como economia são as três dimensões trabalhadas, na última década, pelo governo federal na implementação da política cultural brasileira. Neste contexto, que mantém interfaces com a política de Educação, a capacidade de leitura e de escrita é reconhecida como uma das ferramentas estruturantes para o desenvolvimento pleno do potencial humano e para a expressão da diversidade cultural, favorecendo o intercâmbio entre povos, o alcance de níveis educativos mais altos, entre outras variáveis importantes para o avanço social e econômico da Sociedade.

No Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), revisado em 2015, a concepção de leitura ultrapassa o código da escrita alfabética e a mera capacidade de decifrar caracteres. O documento reconhece a leitura como “processo complexo de compreensão e produção de sentidos, sujeito a variáveis diversas, de ordens social, psicológica, fisiológica, linguística, entre outras”. Ainda segundo o PNLL, uma perspectiva mecanicista da leitura, que pretende reduzir o ato de ler à mera reprodução do que está escrito, tem sido um dos mais graves obstáculos enfrentados.

“Retratos da Leitura no Brasil” é a pesquisa realizada pelo Ibope, por encomenda do Instituto Pró-Livro, criado pela Associação Brasileira de Livros Escolares (Abrelivros), Câmara Brasileira de Livros (CBL) e Sindicato dos Editores de Livros (SNEL). De acordo com dados divulgados em outubro de 2016, o número de leitores subiu seis pontos percentuais, entre 2011 e 2015.

A quarta edição da pesquisa constata que o Brasil tem 104,7 milhões de leitores, cerca de 56% da população brasileira, que agora se aproxima de 207 milhões de habitantes. De acordo com o Instituto Pró-Livro, a metodologia da pesquisa considerou como leitor, o cidadão que leu − inteiramente ou em partes −, pelo menos um livro nos três meses anteriores à coleta de dados.

Considerando este parâmetro, a pesquisa se deparou com a leitura média de 4,96 publicações por habitante/ano, entre literatura, contos, romances, poesia, história em quadrinhos, livros religiosos e didáticos. “Retratos da Leitura no Brasil” revela mais: a Bíblia foi citada como o “gênero” mais lido entre aqueles que não estão estudando. Já entre os estudantes, a Bíblia foi citada por 31% dos entrevistados, mesmo percentual de leitores de contos, seguido dos usuários de livros didáticos (28%).

A redução do analfabetismo no Brasil de 9% (2011) para 8% (2015) impacta na pesquisa, segundo os analistas do Ibope. O aumento da escolaridade também foi percebido entre os entrevistados: também entre 2011 e 2015, de 10% para 13%, no ensino superior, e de 28% para 33%, no ensino médio.

O ganho quantitativo de leitores é, sem dúvida, um avanço, mas as três dimensões da política pública terão mais chance de serem tocadas com a diversificação e qualificação da leitura e, consequentemente, qualificação do leitor. Qualquer leitura será insuficiente para a transformação social. O PNLL está posto e sua implantação precisa de continuidade nos mandatos que se seguem à gestão de Dilma Rousseff.

Especialistas apontam dois caminhos básicos: o estímulo do hábito de leitura ainda na infância e a democratização de acesso, passando pela valorização das bibliotecas, redução do custo do livro, o que inclui estratégias de popularização dos e-books. Além do Estado, em seu papel de fomento, editoras e livrarias também precisam se engajar mais nesta causa, assumindo responsabilidade social, transitando de ponta a ponta nesta cadeia produtiva obsoleta, estabelecida ainda no século 19, que se declara falida e carente de reinvenção. Ninguém pode ficar de fora. (Larissa Mundim)

 

Larissa Mundim é escritora e jornalista, diretora da Nega Lilu Editora, indealizadora da e-cêntrica – Rede de Difusão da Literatura Brasileira.

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