O romance mata de dentro, de Lari Mundim, investiga a perda da identidade civil através da história da professora Sílvia Vicente.
Ao adotar uma invisibilidade voluntária nas ruas, ela perde o próprio nome e passa a ser reconhecida por alcunhas coletivas como “Senhora” e “Vereadora”.
O estilo da escrita usa repetições de palavras e fluxos de consciência que imitam o ritmo de um rezo e mimetizam a mente exausta da personagem.
Essa linguagem poética e fragmentada atua como uma crônica sensorial da própria desintegração social da protagonista.
A trajetória de Sílvia estabelece um diálogo profundo com o pensamento de Michel Foucault ao expor as estruturas biopolíticas de controle sobre os corpos desviantes. Instituições como delegacias, abrigos e espaços de triagem estatais operam como engrenagens disciplinares dedicadas a catalogar, higienizar e enquadrar a personagem.
A postura da protagonista configura uma nítida contra-conduta a esses dispositivos de poder.
Ao recusar os banhos compulsórios e as respostas burocráticas, ela revela o fracasso do aparato governamental em gerenciar o silêncio e o colapso psíquico.
A problematização de gênero constitui o cerne político da obra, posicionando a fuga de Sílvia como uma recusa deliberada às pressões do patriarcado.
Ela rejeita de forma contundente a domesticidade tradicional e a maternidade obrigatória, enxergando-as como formas de escravidão consentida e aprisionamento moral. A comunidade responde a essa insubordinação taxando sua conduta como um conveniente “surto psicótico”, uma etiqueta para patologizar a dissidência feminina. Suas memórias de infância, marcadas por abusos intrafamiliares ocultos e divisões rígidas, provam que o colapso presente tem raízes históricas na violência de gênero.
A metáfora do título sintetiza essas discussões ao fundir o Cerrado da Chapada dos Veadeiros à mente de Sílvia. O bioma traduz o deserto interno e a rústica resiliência da protagonista diante dos traumas, à semelhança dos ipês que florescem na seca. Essa profunda conexão com a terra passa a ser o único território onde seu corpo exausto consegue, finalmente, desmanchar as certezas civis e encontrar um descanso autêntico.
Resenha de autoria de Paulo Fernandes, livreiro da Livraria do Belas, Belo Horizonte/MG (originalmente publicado em https://www.instagram.com/ler_e_criar_asas/ )








